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Abril
2007

O Ciclista e a Comunidade de Abelhas

Um ciclista viajante aporta na Fazenda Tamanduá

Um viajante vindo do Ceará com destino à Curitiba alterou sua rota ao saber da existência de uma fazenda orgânica e biodinâmica no sertão da Paraíba.

Nascido em São Paulo, Luiz Torres, 50 anos, formado em informática, veio residir no Ceará à sete anos devido a disponibilidade de água, o lugar ser bom, bonito, as pessoas maravilhosas e ao baixo custo de vida.

Adepto de uma vida mais consciente e ecológica, resolveu ir de Jijoca de Jericoacora – CE até o Encontro Nacional das Comunidades Alternativas (ENCA) em Curitiba, a ser realizado na primeira semana de julho, de bicicleta. 

Chegou à Fazenda Tamanduá no dia 9 de março onde se encantou com a produção, as pessoas, as paisagens naturais. O que era pra ser apenas uma ligeira passagem, se estendeu por quatro dias onde entre outros ensinamentos, divulgou o “fogão solar”.

 

O fogão solar utiliza material de baixo custo, duas caixas de papelão interceptados por jornal velho (atuando como isolante térmico) e revestido por papel alumínio, no fundo é colocado uma chapa metálica de cor escura. A caixa é coberta por um plástico transparente, para a penetração da luz solar, presa por um elástico.

Como demonstração ao pessoal da Fazenda, o Luiz  preparou arroz, colocado numa panela escura adicionando água e tempero, como usualmente preparamos, a caixa ficou exposta ao sol durante toda a manhã e ao final da manhã o alimento estava pronto e quentinho, sem o custo do gás convencional ou carvão.

Luiz Torres saiu de sua cidade em busca de liberdade sem fronteiras. Não objetiva percorrer exatos quilômetros diários, ele está em busca de pedalar, sem preocupações adversas.

Ele costumava dizer que era apenas um viajante e não turista. Em sua breve passagem pela Fazenda Tamanduá observou o desenvolvimento sustentável, agricultura e pecuária orgânica, fez novos amigos e até arriscou a fazer novos pratos utilizando queijos Suíços fabricados na Fazenda.

Sua próxima parada ainda é um dilema, só nos resta desejar boa sorte na sua caminhada.

Luiz Torres e o fogão solar

 

Comunidade de Abelhas em Áreas de Caatinga no Nordeste Brasileiro: Proposta de Monitoramento Ambiental

Aproximadamente há dois anos, a Fazenda Tamanduá é visitada mensalmente por uma pessoa geralmente solitária que anda nos campos com uma rede entomológica.

Um projeto original que Alysson desenvolve na Fazenda Tamanduá, pesquisando as abelhas, grandes polinizadoras discretas do nosso sertão, mesmo que elas não produzam mel.

Mas vamos deixar que ele mesmo explique o seu trabalho :

 

Recentemente, a Caatinga foi reconhecida como uma das 37 grandes regiões naturais do planeta. Grandes regiões naturais são ecossistemas que abrigam, pelo menos, 70% de sua cobertura vegetal original, ocupam áreas superiores a 100.000Km2 e, desta forma, são considerados estratégicos no contexto das mudanças globais. Até o momento, foram registrados para esse bioma 932 espécies de plantas vasculares, 185 espécies de peixes, 154 espécies de répteis e anfíbios, 348 espécies de aves, 148 espécies de mamíferos e 187 espécies de abelhas. Nestes grupos de organismos, o total de endemismo varia entre 4,3% até 57% (MMA, 2002; Zanella & Martins, 2003; Leal et al., 2003).  

A fauna de insetos associada à caatinga é pobremente conhecida e levantamentos faunísticos na área de caatinga são fundamentais para o conhecimento das estruturas taxonômicas e funcionais da biodiversidade.

 

Também são essenciais para proposição e implementação de medidas de monitoramento, quer visando à proteção de espécies de interesse econômico ou ecológico, quer objetivando a implantação de Unidades de Conservação a partir de modelos de análise de fauna de insetos bioindicadores.

 

Exemplos de Flores da Fazenda Tamanduá

De acordo com estudos recentes, na Caatinga foram identificadas 82 áreas prioritárias para o estudo e conservação da biodiversidade. Essas áreas foram classificadas como sendo de extrema importância biológica (27 áreas), de muito alta importância biológica (12 áreas) e de alta importância biológica (18 áreas), além da categoria de potencial importância (25 áreas), mas ainda pouco conhecida.

No workshop sobre a conservação da biodiversidade da Caatinga, foi reconhecido que esse ecossistema necessita de diversas ações urgentes para sua conservação e foi gerado um mapa com a localização de áreas prioritárias para estudo e conservação. Neste mapa, o Cariri Paraibano e a área do Seridó/Borborema, entre outros, aparecem como sendo áreas de extrema importância biológica para a conservação da biodiversidade em geral (MMA, 2002).

 
Destacar o papel e o valor das espécies polinizadoras (como as abelhas) na manutenção dos recursos vegetais e o retorno econômico que se pode ter, em longo prazo, pode ser uma saída e uma chance para desacelerar o processo de destruição. A contribuição econômica dos insetos polinizadores em relação às plantas cultivadas (incluindo as abelhas) foi estimada em torno de 500 milhões de dólares por ano, apenas na Europa (Williams, 2002). Cerca de 30% de todos os vegetais que consumimos, dependem de uma abelha como meio de polinização para a sua produção (Buchmann & Nabham, 1996). Se levarmos em consideração os custos no manejo das plantas cultivadas, as abelhas nativas, entre elas as espécies solitárias, são os polinizadores mais importantes (Corbet, 1996). Algumas abelhas solitárias (Centris, Xylocopa, Gaesischia e Ptiloglossa), especialistas em flores que ocorrem em baixa densidade, são capazes de voar a longas distâncias e sobre extensas áreas à procura dos recursos das flores com este tipo de estratégia (Rebêlo, 2001). Estas abelhas serão num futuro próximo, importantes vetores no desenvolvimento de uma agricultura sustentável na região. Além disso, outra grande contribuição das abelhas para as áreas de Caatinga atualmente, está relacionada com a sua possível capacidade de bioindicação da qualidade ambiental, podendo um padrão de estrutura da comunidade de abelhas servir como indicador de nível de degradação ou grau de antropização.
 

Com o objetivo de caracterizar alguns aspectos ecológicos e estruturais das comunidades de abelhas em áreas de Caatinga no Nordeste brasileiro e posterior uso do padrão de estrutura dessas comunidades como indicadores de qualidade ambiental em estudos de caracterização de áreas impactadas e/ou estudos de impactos ambientais, nos propomos a realizar uma Tese de doutorado intitulada: “Comunidade de Abelhas (Hymenoptera: Apoidea Apiformes) em Áreas de Caatinga no Nordeste Brasileiro.

Um dos locais de estudo escolhido, pela sua ótima infra-estrutura foi a Fazenda Tamanduá. Nela, foram escolhidas duas áreas, uma considerada em bom estado de conservação (RPPN) e outra área caracterizada como pastagem, suficientemente distantes uma da outra (pelo menos 4 km). Estas áreas foram divididas em quatro sub-áreas de tamanhos semelhantes.

 
Estão sendo realizadas amostragens das abelhas nas flores com rede entomológica e coletada também as plantas visitadas. As coletas são mensais, um dia por área de coleta, das 8:00h às 12:00 horas, perfazendo 1 hora em cada sub-área.

As coletas vêm sendo realizadas desde janeiro de 2006, na Fazenda Tamanduá já foram amostrados mais de 400 indivíduos e pelo menos 30 espécies de abelhas, principalmente as espécies solitárias. Os resultados obtidos por este projeto também subsidiará o PPBIO-semi-árido (Projeto de Pesquisa em Biodiversidade no Semi-árido), implantado no inicio do ano de 2006, com os levantamentos da fauna de abelhas na área da Fazenda Tamanduá.

Alysson Kennedy P. Souza  / Biólogo e Mestre em Zoologia (UFPB)

Já foram amostrados mais de 400 indivíduos e pelo menos 30 espécies de abelhas


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