Abril  2004

JORNAL TAMANDUÁ - ABRIL 2004 - Pesquisa - Inspeção - Mel

 

Pesquisa sobre ciclagem de nutrientes e emissão de CO2 no semi-árido da Paraíba


Está sendo conduzido na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Fazenda Tamanduá, no município de Santa Terezinha (PB), trabalho para melhor entendimento sobre como se comporta a caatinga, vegetação típica da região, no que tange a ciclagem de nutrientes e emissão de CO2.
A RPPN apresenta uma área de 381,60 ha, inserida no semi-árido do Nordeste brasileiro, onde a deficiência hídrica e as altas temperaturas predominam na maior parte do ano.
 

O trabalho, após concluído, será a Tese de Doutorado da Engenheira Florestal Patrícia Carneiro Souto, bolsista CAPES do Programa de Doutorado  em Agronomia da Universidade Federal da Paraíba, sob a orientação dos Professores Drs. Jacob Silva Souto e José Romilson Paes de Miranda, do Departamento de Engenharia Florestal/Campus de Patos (PB)/Universidade Federal de Campina Grande, tendo também a participação de alunos bolsistas de Iniciação Científica/CNPq e voluntários do Curso de Engenharia Florestal.

Ë importante ressaltar que são raros os trabalhos sobre a ciclagem de nutrientes em área de caatinga. Sabe-se que a absorção e o retorno de nutrientes pode ser anualmente maior nas florestas tropicais do que em outros tipos de vegetação.
 

Esses nutrientes (nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, etc.) oriundos na sua maior parte da biomassa morta (folhas, galhos, flores, frutos, troncos, raízes mortas, etc.) sofrem ataque dos organismos do solo. O conhecimento de toda esta estrutura pode ser utilizado como indicador de funcionamento do sistema, o qual irá fornecer informações sobre o grau de degradação ou recuperação de uma área.

A execução deste trabalho, que recebe apoio irrestrito do Proprietário da Fazenda Tamanduá, Dr. Pierre Landolt, se reveste de uma importância fundamental para a região, visto que, por um período de 02 anos, mensalmente, estará se estudando o aporte de folhas, galhos, cascas, flores, frutos e outros materiais, em caixas coletoras distribuídas na área e a sua decomposição através dos organismos do solo, utilizando o método das sacolas de náilon, contendo liteira da área de estudo.

 A Eng.Florestal Patrícia Carneiro Souto recolhendo folhas, galhos, frutos, etc

 

Na mesma área experimental também são coletados mensalmente, dados referentes a emissão de CO2  do solo, nos períodos diurno e noturno. Esta informação será de suma importância para um melhor conhecimento da caatinga no que concerne ao seqüestro de carbono.

Para quantificar o CO2 evoluído do solo, utiliza-se uma solução de KOH 0,5 N em recipientes de vidro,
cobertos por baldes plásticos

Para quantificar o CO2 evoluído do solo, utiliza-se uma solução de KOH 0,5 N em recipientes de vidro, cobertos por baldes plásticos. Após um período de 12 horas, de 7:00 h as 19:00 h e, de 19:00 h as 7:00 h, correspondendo, respectivamente, aos períodos diurno e noturno, as amostras são coletadas no campo, hermeticamente fechadas, e transportadas para o Laboratório de Solos e Água do Departamento de Engenharia Florestal/UFCG para serem tituladas com solução de HCl 0,1 N, para quantificação do CO­­2 retido em cada amostra.

Simultaneamente a coleta da serrapilheira, são retiradas amostras de solo para determinação de microrganismos (bactérias e fungos) e, usando anéis volumétricos de aço, coleta-se solo + liteira para extração e contagem da mesofauna (ácaros, colêmbolos, besouros e outros organismos de até 1,0 mm de comprimento).

 

 

 Quinta inspeção anual do Instituto Biodinâmico, IBD

 


Pedro Jovchelevich, gerente geral da Associação Biodinâmica (ABD) e inspetor do Instituto Biodinâmico (IBD) para propriedades Demeter, acompanhado de Cláudio Rodrigues Anders, jovem inspetor de Natal, RN, efetuou a inspeção anual da Fazenda Tamanduá nos últimos dias 11 e 12 de março. Pedro, que realizou a nossa última inspeção em agosto 2003, resolveu mudar as datas da visita afim de conhecer a fazenda no momento de maior vida e atividade agrícola, seja durante a estação chuvosa.

   

Sorgo forrageiro

Acompanhado por Pierre e Manoel, Pedro conheceu assim os diversos plantios efetuados este ano que começou felizmente com boas precipitações : para o gado leiteiro foi plantado sorgo forrageiro (60 hectares) que será ensilado, e, aproveitando as imensas áreas de vazantes que a evaporação vai liberar no decorrer do ano, o capim mandante como fonte de ração verde, o capim andré-quicê, mais fino, destinado a fenação, o milho e futuramente o sorgo granífero que servirão de base para a ração. O objetivo é conseguir diminuir a dependência da fazenda em termos de alimentação animal, desafio complexo no semi-árido, sempre a mercê de uma seca dramática como a do ano passado, de uma energia elétrica cara que limita o uso da irrigação a culturas de bom valor econômico como as mangas, e de uma falta crônica de fontes de proteínas baratas.
 

 

Meio hectare de girassol foi plantado perto do melhor apiário afim de melhorar a alimentação das abelhas. Efetuamos um plantio de 5 hectares de gergelim selecionado pela Embrapa, teste muito valioso para uma planta herbácea altamente resistente a seca. Dependendo da avaliação dos resultados e dos custos desta cultura, podemos pensar em promover esta cultura o ano que vem. De fato, ela pode representar uma excepcional opção para o agricultor da região, já que o mercado de gergelim orgânico se mostrou muito atraente este ano e pela falta de alternativas para as culturas efetuadas nos tabuleiros, solos rasos e de fertilidade baixa onde se plantava tradicionalmente o algodão.

Pedro conheceu de perto o manejo em andamento das mangueiras, já certificadas Demeter : roço, controle do bicho pau e gafanhoto, distribuição do composto, aplicação dos preparados. Com Pedro foram re-elaborados os calendários de aplicação dos preparados biodinâmicos em função da realidade climática da fazenda, bem como da fabricação deles. A sua presença foi aproveitada para enterrar 32 chifres do preparado 501, chifre sílica, primeira produção na fazenda. Até então tinha somente efetuado o preparado 500 chifre-esterco. Vamos ter que intensificar as aplicações deste último na fazenda toda, garantindo uma dinamização perfeita e a atribuição do selo Demeter para a fazenda inteira.
 

Pedro ficou satisfeito em constatar que as bezerras conhecidas em agosto passado não foram mais descornadas. Este fato é importante para o criador biodinâmico : conforme aos ensinamentos de Rudolf Steiner “as vacas tem chifres  a fim de enviar para dentro de si aquilo que deve ter ação formativa no plano etérico-astral, isto é, aquilo que deve avançar na interiorização até o organismo digestivo, de modo a se criar muita atividade na área da digestão justamente por irradiação oriunda dos chifres.” Portanto a descorna é considerada como uma mutilação inaceitável.

As terríveis tabelas preparadas com atenção e carinho durante todo o ano por Célia foram analisadas com muita cautela e não apresentaram grandes dúvidas.

As bezerras conhecidas em agosto de 2003 não foram mais descornadas

   

Pedro mostra a Manoel (de costas) o chifre com o preparado biodinâmico

Manoel, o administrador, Alan o veterinário, Flávio o agrônomo-apicultor e Paula, responsável do processamento do leite e das frutas, foram todos devidamente sabatinados, mas não houve sérios problemas levantados. A visão biodinâmica de Pedro nos ajudou a refletir sobre muitas dúvidas e questões encontradas no dia a dia, já que viabilizar a aplicação da filosofia antroposófica numa propriedade deste tamanho, integrando pecuária e agricultura no semi-árido representa um desafio para todos. Esperamos que o temido relatório final seja favorável. De qualquer maneira, o intercâmbio de informações dentro de uma visão positiva e construtiva foi muito importante. Obrigado.


Mel Orgânico


Na cidade de Patos, o governador Cássio Cunha Lima assinou no dia 11 de março quatro Convênio com o COOPERAR, na presença da sua Diretora Sonia Germano e as Associações Comunitárias Rurais afim de implantar um núcleo de produção orgânica de mel no Sertão das Espinharas. Abrangendo inicialmente quatro municípios do semi-árido, Patos, Santa Terezinha, São Mamede e São José de Espinharas, este projeto piloto, elaborado e acompanhado pela Fazenda Tamanduá, vai oferecer uma renda adicional aos pequenos produtores rurais daquela região.

O fim da cultura do algodão mocó, por causa da presença do inseto “bicudo” e da queda dos preços, diminuiu as fontes de renda de muitos agricultores e a caatinga voltou a ocupar os campos abandonados, oferecendo novas e importantes áreas de pastagem apícola.

Para iniciar o projeto, a abelha escolhida foi a “Apis Mellífera”africanizada, mas pode se pensar  incentivar a criação de abelhas nativas num próximo futuro. A riqueza da flora da caatinga arbustiva permite uma produção de mel de ótima qualidade e bastante diversificada. Acompanhando a estação chuvosa que começa geralmente em fevereiro, as florações se seguem, começando pelo marmeleiro, depois o mufumbo, o angico, a jurema até chegar ao período seco. Durante estes meses difíceis para todos, precisa alimentar artificialmente as abelhas recorrendo a uma garapa de açúcar orgânico afim de evitar a fuga dos enxames.
 

Apis mellifera

As coletas sucessivas vão permitir uma safra que foi avaliada em perto de 20 quilos por colméia. Por causa das rígidas normas do Instituto Biodinâmico (IBD) que vai certificar este mel, a seleção dos novos apicultores não foi simples : de fato um apiário orgânico tem que ficar a uma distância mínima de três quilômetros de qualquer cultura convencional afim de garantir a ausência de resíduos químicos no mel.

Flávio Alves de Medeiro, jovem agrônomo especializado em apicultura e trabalhando na Fazenda Tamanduá há perto de um ano, vai prestar os seus conhecimentos aos produtores, que receberão formação e treinamento específicos além do material, financiado pelo Cooperar e o Governo do Estado. As instalações de processamento do mel da Fazenda Tamanduá, controladas pelo Serviço de Inspeção Federal, SIF, do Ministério da Agricultura garantirão um produto de higiene e qualidade perfeitos.

 

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